Pretos-Velhos: história, nomes, como trabalham e o significado dessa linha da Umbanda
Os Pretos-Velhos são espíritos de africanos e afrodescendentes escravizados no Brasil que, apesar do sofrimento vivido, alcançaram grande elevação espiritual. Na Umbanda, são símbolos de humildade, paciência, perdão e sabedoria. São muito procurados para conselhos, benzimentos e cura. A saudação aos Pretos-Velhos é Adorei as Almas! ou Salve as Almas!
Origem e história
Os Pretos-Velhos representam a memória de milhões de pessoas que foram trazidas à força da África e que sustentaram a economia do Brasil colonial e imperial com seu trabalho. Muitos chegaram à velhice depois de uma vida inteira de privações. Nas senzalas, mantiveram vivas a fé nos Orixás, as rezas, o conhecimento das ervas e as histórias dos antepassados.
Nas narrativas contadas nos terreiros, os Pretos-Velhos falam de vidas nas fazendas de café e de cana, nas minas e nas cidades. Contam que aprenderam a curar com folhas, que ajudavam nos partos, que benziam crianças e que, mesmo diante da violência, escolheram o caminho do perdão. É essa escolha que os torna mestres na Umbanda.
Como os Pretos-Velhos trabalham
Na gira, os Pretos-Velhos chegam curvados, andando devagar, muitas vezes apoiados numa bengala. Sentam-se em banquinhos, fumam cachimbo, usam terço e guias de lágrimas de Nossa Senhora e falam com voz mansa, cheia de expressões antigas. Benzem com galhos de arruda e alecrim, fazem simpatias, rezas e dão conselhos sobre família, saúde e relacionamentos. São conhecidos por ouvir com paciência e por ensinar sem julgar.
Nomes mais conhecidos
Entre os Pretos-Velhos mais conhecidos estão Pai Joaquim de Angola, Pai Benedito, Pai Francisco, Pai Antônio, Pai Tomé, Pai Guiné, Pai José de Aruanda e Pai Jacó. Entre as Pretas-Velhas, Vovó Maria Conga, Vovó Cambinda, Vovó Catarina, Vovó Maria Redonda, Vovó Rita e Vó Benta. Os nomes costumam indicar a nação africana de origem, como Angola, Congo, Cambinda e Moçambique.
Histórias contadas nos terreiros
Vovó Maria Conga é uma das mais amadas. Nas narrativas, ela teria sido trazida do Congo ainda menina, trabalhado como cozinheira e parteira e se tornado conselheira de toda a senzala. Conta-se que curava com ervas e rezas e que acolhia os doentes e os que fugiam. Pai Joaquim de Angola costuma ser descrito como um velho rezador que ajudava os companheiros a manter a fé e que ensinava sobre a força do perdão.
Essas histórias variam de casa para casa e representam a falange, ou seja, o grupo de espíritos que trabalha sob o mesmo nome.
Dia, cores e oferendas
O dia dos Pretos-Velhos é 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea, em 1888. Muitas casas fazem gira de Pretos-Velhos às segundas-feiras, dia das almas. Suas cores são o branco e o preto, e em algumas casas o branco com cinza. As oferendas incluem café amargo, bolo de fubá, rapadura, cocada, fumo de cachimbo e vinho moscatel.
A gira de Pretos-Velhos
A gira de Pretos-Velhos tem um clima muito diferente das outras. O ritmo dos atabaques fica mais lento, os pontos cantados falam de senzalas, de rosários, de Aruanda e de saudade da África. Os médiuns incorporados se curvam, caminham devagar e se sentam em banquinhos baixos. O ambiente fica tomado pelo cheiro de fumo de cachimbo e de ervas. Muitos consulentes dizem que essa é a gira em que mais se sentem acolhidos, porque os Pretos-Velhos ouvem com calma e falam com carinho.
O benzimento
O benzimento é uma das práticas mais associadas aos Pretos-Velhos. Com um ramo de arruda, guiné ou alecrim, eles fazem gestos em forma de cruz sobre o corpo da pessoa enquanto rezam em voz baixa. A tradição diz que o benzimento retira quebranto, mau-olhado, cobreiro e energias pesadas. Essa prática também existe fora da Umbanda, entre as benzedeiras do interior do Brasil, e mostra a mistura de saberes africanos, indígenas e católicos.
O cachimbo e o rosário
O cachimbo do Preto-Velho não é apenas um hábito herdado da vida na senzala. A fumaça é usada como instrumento de limpeza espiritual, assim como o charuto dos Caboclos. O rosário, ou terço, mostra a ligação com o catolicismo popular e a força da oração na vida dessas entidades. Muitos Pretos-Velhos usam também guias de lágrimas de Nossa Senhora, sementes de uma planta que lembram contas.
O que os Pretos-Velhos ensinam
Os Pretos-Velhos ensinam que é possível transformar a dor em sabedoria. Tendo vivido sob a escravidão, eles poderiam ter escolhido o caminho da revolta e do rancor, mas, segundo a tradição, escolheram o perdão e a caridade. Suas palavras costumam lembrar a importância da paciência, da humildade, da fé e do amor à família. Eles valorizam as coisas simples e ensinam que ninguém é melhor do que ninguém.
Pretos-Velhos e a memória da escravidão
A linha dos Pretos-Velhos também tem um papel importante de memória. Ela mantém viva, dentro da religião, a lembrança de um dos períodos mais violentos da história do Brasil, que durou mais de trezentos anos. Reverenciar os Pretos-Velhos é também reconhecer a contribuição dos africanos e de seus descendentes para a formação do país e combater o racismo que ainda persiste.
Como pedir ajuda aos Pretos-Velhos
Para se conectar com os Pretos-Velhos fora do terreiro, muitas pessoas acendem uma vela branca na segunda-feira, colocam ao lado uma xícara de café sem açúcar e um pedaço de bolo de fubá e fazem uma oração pedindo paciência, saúde e proteção para a família. Rezar o terço e visitar os mais velhos da família também são formas de honrar essa linha.
Perguntas frequentes sobre Pretos-Velhos
Qual a saudação dos Pretos-Velhos? Adorei as Almas! ou Salve as Almas!
Qual o dia dos Pretos-Velhos? 13 de maio, data da Lei Áurea.
Pretos-Velhos são de qual Orixá? Em muitas casas, de Oxalá e de Omulu. Em outras, de Nanã.
Por que os Pretos-Velhos andam curvados? Por representarem espíritos que chegaram à velhice depois de uma vida de trabalho pesado.
As mirongas dos Pretos-Velhos
Os Pretos-Velhos costumam falar em mirongas, palavra de origem banta que significa segredo, mistério, conhecimento oculto. As mirongas são os saberes que eles guardam sobre ervas, rezas, simpatias e trabalhos espirituais. Muitos dizem que “preto-velho não conta suas mirongas”, indicando que certos conhecimentos só são revelados a quem está preparado.
Os pontos riscados dos Pretos-Velhos
Nos pontos riscados dos Pretos-Velhos aparecem cruzes, rosários, estrelas, cachimbos e corações. Esses símbolos mostram a ligação com a fé, com a caridade e com o amor. O ponto é riscado no chão com pemba branca e serve para firmar a presença da entidade e direcionar os trabalhos.
Pretos-Velhos e os Orixás
Os Pretos-Velhos trabalham sob a vibração de diferentes Orixás. Em muitas casas, estão ligados a Oxalá, pela paz e pela sabedoria. Em outras, a Omulu e Nanã, pela ligação com as almas e com a velhice. Também há Pretos-Velhos que trabalham nas linhas de Xangô, de Iansã e de Iemanjá. Essa diversidade mostra a importância dessa linha em todo o trabalho espiritual.
Como se comportar numa consulta com um Preto-Velho
Ao chegar perto de um Preto-Velho, é comum se ajoelhar ou se abaixar para ficar na altura dele, em sinal de respeito, e pedir a bênção. O consulente pode falar com calma, sem pressa, porque os Pretos-Velhos gostam de ouvir com atenção. Muitos saem da consulta com um galho de arruda ou uma oração para fazer em casa.
Conclusão
Os Pretos-Velhos são a expressão mais doce da sabedoria na Umbanda. Com paciência, humildade e fé, eles acolhem, aconselham e curam, lembrando que o sofrimento pode se transformar em amor e que o perdão liberta. Conhecer sua história é também honrar a memória dos africanos escravizados que construíram o Brasil e mantiveram viva a sua fé.