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Orixás

Nanã: a história da Orixá mais antiga, de quem é mãe e seus fundamentos

23 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Nanã, também chamada de Nanã Buruquê, é a Orixá mais antiga do panteão. Ela é a senhora da lama, dos pântanos, da terra molhada e do barro primordial do qual a humanidade foi feita. Rege o nascimento, a morte, a sabedoria dos mais velhos e os ciclos da vida. Sua saudação é Saluba Nanã!. No Brasil é sincretizada com Sant’Ana, a avó de Jesus.

A origem de Nanã

Nanã é tão antiga que, em muitos itans, já existia antes dos outros Orixás. Seu culto tem origem entre os povos fon e jeje, do antigo Daomé, atual Benim, e foi incorporado depois pelos iorubás. Por isso ela costuma ser apresentada como uma Orixá que não tem pais, mas que é a avó de todos.

O barro da criação

Quando Olodumare pediu a Oxalá que criasse os seres humanos, ele tentou modelá-los com vários materiais. Usou o ar, mas os seres se desfizeram. Usou a pedra, mas ficaram duros demais. Usou a água, o fogo, a madeira, e nada funcionou. Foi Nanã quem ofereceu um pouco da lama do fundo de seu pântano. Com aquele barro, Oxalá modelou os primeiros seres humanos e Olodumare soprou neles a vida.

Nanã, porém, impôs uma condição: o barro seria apenas emprestado. Quando a vida de cada pessoa terminasse, o corpo deveria voltar à terra. É por isso que Nanã está ligada tanto ao nascimento quanto à morte, e é por isso que os corpos retornam ao solo.

Por que Nanã não aceita o ferro

Um itan conta que houve uma disputa entre Ogum e Nanã sobre qual Orixá era mais importante. Ogum dizia que nada se fazia sem o ferro. Nanã respondeu que não precisava dele para nada. Para provar, passou a fazer seus sacrifícios com facas de madeira, de bambu ou de pedra. Desde então, em muitos terreiros, os rituais de Nanã não usam instrumentos de metal.

Mãe de Omulu, Oxumaré e Ewá

Nanã teve filhos com Oxalá. O primeiro foi Omulu, que nasceu com o corpo coberto de feridas. Assustada, ela o deixou na beira do mar, e ele foi encontrado e criado por Iemanjá. Esse episódio marcou a história de Nanã e explica por que ela é associada também ao arrependimento e ao perdão. Seus outros filhos são Oxumaré, o arco-íris, e Ewá, a senhora das brumas. Em muitas versões, Ossaim também é seu filho.

Domínios e características

Nanã rege a lama, os pântanos, a chuva, a sabedoria, a paciência, a velhice e a passagem entre a vida e a morte. É a avó que ensina que tudo tem seu tempo. Seu símbolo é o ibiri, um feixe de nervuras de palmeira enfeitado com búzios, que ela carrega como se embalasse uma criança.

Cores, dia e oferendas

As cores de Nanã são o lilás e o roxo, e em algumas casas o branco com azul. Seu dia é o sábado, em algumas casas a terça-feira. Entre as oferendas mais comuns estão a berinjela, o mungunzá, a canjica e flores roxas. A tradição recomenda não usar instrumentos de metal no preparo.

Como são os filhos de Nanã

Os filhos de Nanã são pessoas calmas, ponderadas, sábias e muito pacientes. Gostam de tradição, de ouvir os mais velhos, de rotinas tranquilas e de fazer as coisas no seu tempo. Têm grande capacidade de acolher, de ouvir e de aconselhar. São firmes nas decisões e dificilmente mudam de opinião depois de refletir.

Podem parecer severos, rígidos ou resistentes a mudanças, e às vezes demoram a perdoar. Também têm tendência a carregar o peso dos outros. Muitos se identificam com profissões ligadas ao cuidado de idosos, à medicina, à pedagogia, à história e às atividades que exigem paciência.

O ibiri de Nanã

O ibiri, símbolo de Nanã, é feito com as nervuras das folhas de palmeira, amarradas e enfeitadas com búzios e contas. Nanã o carrega junto ao corpo como se embalasse um bebê. Para muitos estudiosos, o ibiri representa os espíritos dos ancestrais que voltaram à terra e que ela acolhe, reforçando seu papel de guardiã da passagem entre a vida e a morte.

Nanã e a chuva

Nanã está ligada também às águas paradas e à chuva que encharca a terra. Quando a chuva cai e transforma o chão em lama, a tradição diz que é Nanã preparando o solo para que a vida renasça. Por isso ela é invocada em períodos de seca e lembrada como a mãe que fertiliza a terra.

Sant’Ana e Nanã

O sincretismo de Nanã com Sant’Ana, mãe de Maria e avó de Jesus, vem da ideia da avó sábia, a mais velha da família. O dia de Sant’Ana é 26 de julho, e muitas casas fazem festas para Nanã nessa data. Em Salvador, há também uma ligação com Nossa Senhora de Nazaré e, em outras regiões, com Nossa Senhora da Glória.

Ervas e banhos de Nanã

Entre as ervas de Nanã estão a manjerona, a alfavaquinha, o manacá, a folha de quaresmeira, a erva-de-passarinho e o assa-peixe. Um banho tradicional de sabedoria e aceitação leva folhas de manjerona e alfazema, preparado em água morna, com o pedido de paciência para lidar com as fases difíceis.

Como se conectar com Nanã no dia a dia

Nanã se agrada da paciência e do respeito aos mais velhos. Ouvir com atenção os avós, cuidar de quem envelheceu, preservar as histórias da família e aceitar o tempo das coisas são formas simbólicas de honrá-la. Muitas pessoas acendem uma vela lilás no sábado e fazem uma oração pedindo sabedoria e serenidade.

Perguntas frequentes sobre Nanã

Nanã é mãe de quem? De Omulu, Oxumaré e Ewá e, em muitas versões, de Ossaim.

Por que Nanã não aceita faca de metal? Por causa do itan da disputa com Ogum, em que ela afirmou não precisar do ferro.

Qual a cor de Nanã? Lilás e roxo na maioria das casas.

Qual a saudação de Nanã? Saluba Nanã!

As qualidades de Nanã

Nanã tem algumas qualidades conhecidas nas casas de Candomblé. Nanã Buruquê é a mais conhecida e a mais velha. Nanã Ybain é associada à lama e ao fundo dos rios. Nanã Asainan é ligada à realeza. Na Umbanda, a linha de Nanã costuma reunir Pretas-Velhas de grande sabedoria, que trabalham com acolhimento, conforto espiritual e conselhos sobre família e passagem.

O que Nanã ensina

Nanã ensina que tudo tem seu tempo. Ela lembra que a vida é feita de ciclos e que o fim de uma fase é também o começo de outra. Sua história com Omulu mostra que até os mais sábios erram, mas que é possível reconhecer o erro e encontrar o caminho do perdão. Em uma sociedade que valoriza a pressa e a juventude, Nanã convida à paciência e ao respeito pelos mais velhos e pela memória.

Nanã e a morte

Por estar ligada ao barro do qual somos feitos e ao retorno do corpo à terra, Nanã é a Orixá que acolhe os que partem. Ela não representa o medo da morte, mas a aceitação de que a vida é um empréstimo. Em momentos de luto, muitos umbandistas acendem uma vela lilás para ela, pedindo conforto para quem fica e luz para quem foi.

Uma oferenda simples a Nanã pode ser feita com uma vela lilás, flores roxas e um pote de barro com água, sempre sem instrumentos de metal no preparo.

Saluba Nanã!