Pular para o conteúdo
Filha da Umbanda@filhadaumbanda1985
Siga no Instagram
Orixás

Quem são os Orixás: origem, significado e como atuam na Umbanda

23 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

Os Orixás são divindades de origem iorubá, povo da região que hoje corresponde à Nigéria, ao Benim e ao Togo, na África Ocidental. Na cosmologia iorubá, eles são forças da natureza e também ancestrais divinizados, seres que receberam de Olodumare, o Deus supremo, a missão de cuidar de partes da criação. Cada Orixá governa um elemento (o mar, os rios, as matas, o trovão, o vento, a terra) e também um aspecto da vida humana, como a justiça, o amor, a cura, a coragem e a sabedoria.

Como os Orixás chegaram ao Brasil

O culto aos Orixás chegou ao Brasil com os africanos escravizados, principalmente a partir do século XVIII. Proibidos de praticar sua fé, eles associaram cada Orixá a um santo católico, num processo conhecido como sincretismo religioso. Foi assim que Ogum passou a ser lembrado como São Jorge, Iansã como Santa Bárbara, Oxóssi como São Sebastião e Iemanjá como Nossa Senhora dos Navegantes ou Nossa Senhora da Conceição, de acordo com a região.

No Brasil, o culto se organizou de formas diferentes. O Candomblé preservou com mais força a liturgia africana, a língua iorubá e os ritos de iniciação. A Umbanda, que nasceu oficialmente em 1908 no Rio de Janeiro, recebeu os Orixás como grandes regentes espirituais e organizou seu trabalho em linhas, comandadas por eles e formadas por guias como Caboclos, Pretos-Velhos e Crianças.

Os Orixás na Umbanda

Na Umbanda, os Orixás são compreendidos como energias divinas que não costumam incorporar da mesma forma que os guias. Quem se manifesta nas giras, na maior parte das casas, são os falangeiros, espíritos que trabalham sob a vibração de cada Orixá. Toda pessoa tem um Orixá de cabeça, também chamado de pai ou mãe de cabeça, que rege sua personalidade, e um segundo Orixá, chamado de juntó ou adjuntó, que equilibra essa energia.

Cada Orixá tem cores, dia da semana, saudação, elementos, ervas e oferendas próprios. Essas correspondências podem variar de um terreiro para outro, e isso é natural numa religião que não tem um livro sagrado único e se transmite pela oralidade.

As histórias dos Orixás: os itans

As histórias dos Orixás são chamadas de itans. Elas foram transmitidas oralmente por séculos pelos sacerdotes de Ifá e chegaram ao Brasil em muitas versões. Por isso, é comum encontrar relatos diferentes sobre quem é pai ou mãe de determinado Orixá. Aqui no blog, contamos as versões mais difundidas nos terreiros brasileiros e indicamos quando existem outras leituras.

Os Orixás que você encontra aqui

Nesta categoria você vai conhecer em detalhes Exu, Ogum, Oxóssi, Ossaim, Xangô, Iansã, Oxum, Logunedé, Iemanjá, Nanã, Obaluaiê e Omulu, Oxumaré, Ewá, Obá, Ibeji e Oxalá. Para cada um, contamos a origem, de quem é filho segundo os itans, os principais acontecimentos da sua história, os domínios, as cores, a saudação e o sincretismo.

Olodumare, Olorum e a hierarquia espiritual

Para compreender os Orixás, é preciso conhecer a ideia de Olodumare, também chamado de Olorum. Ele é o Deus supremo, criador de todas as coisas, que não recebe culto direto na maior parte das tradições porque está acima de qualquer forma. Abaixo dele estão os Orixás, que receberam funções específicas na criação. Na Umbanda, essa estrutura se completa com os guias espirituais e, por fim, com os médiuns, que servem de ponte entre o plano espiritual e o plano material.

Essa hierarquia não deve ser entendida como uma escada de poder, mas como uma organização de funções. Cada nível tem sua tarefa: Olorum sustenta a existência, os Orixás regem as forças da natureza e da vida, os guias trabalham no atendimento direto às pessoas e os médiuns emprestam seus corpos e sua dedicação para que a caridade aconteça.

Orixá de cabeça: como se descobre

Uma das perguntas mais comuns de quem começa a frequentar um terreiro é como descobrir o próprio Orixá de cabeça. Na Umbanda, isso costuma ser feito pelo dirigente espiritual da casa, por meio do jogo de búzios, da consulta a um guia ou da observação do médium ao longo do tempo. No Candomblé, o jogo de búzios é o caminho tradicional. Testes de internet podem ser uma brincadeira, mas não substituem a orientação de uma pessoa preparada.

Além do Orixá de frente, cada pessoa tem um juntó, que equilibra sua energia, e, em algumas tradições, outros Orixás que compõem o chamado enredo. Essa combinação explica por que filhos do mesmo Orixá podem ter personalidades tão diferentes.

Qualidades dos Orixás

Outro conceito importante é o de qualidade, também chamado de caminho. Cada Orixá se manifesta de diferentes formas, ligadas a lugares, histórias e funções. Oxum, por exemplo, tem qualidades mais jovens e guerreiras e outras mais maduras e maternais. Oxalá tem sua forma velha, Oxalufã, e sua forma jovem, Oxaguiã. Ogum tem qualidades ligadas ao mar, às matas e às estradas. Conhecer as qualidades ajuda a entender por que as cores e as oferendas mudam de uma casa para outra.

Os Orixás e a natureza

A relação entre os Orixás e a natureza é o ponto central do culto. O mar é a casa de Iemanjá, os rios e cachoeiras pertencem a Oxum, as matas a Oxóssi e Ossaim, as pedreiras a Xangô, os ventos e tempestades a Iansã, a lama e os pântanos a Nanã, a terra e o cemitério a Omulu e o céu e a luz a Oxalá. Por isso, cuidar da natureza é também uma forma de culto. Muitos terreiros orientam seus filhos a não deixar plásticos, vidros ou restos de oferendas em praias, rios e matas, entendendo que poluir a casa de um Orixá é desrespeitá-lo.

Os Orixás e o sincretismo

O sincretismo com os santos católicos foi, durante séculos, uma estratégia de sobrevivência. Ao colocar a imagem de São Jorge no altar, por exemplo, os fiéis podiam cultuar Ogum sem serem perseguidos. Hoje, muitas casas de Umbanda mantêm o sincretismo como parte da sua história, enquanto outras, principalmente no Candomblé, preferem separar as duas tradições. As duas posturas convivem e são respeitadas.

Por que as informações variam tanto

Quem pesquisa sobre Orixás logo percebe que cores, dias, saudações e histórias mudam conforme a fonte. Isso acontece porque as religiões de matriz africana se formaram a partir de povos diferentes, como iorubás, fons, jejes e bantos, e se desenvolveram de forma independente em cada região do Brasil. Além disso, a transmissão é oral, de geração em geração, dentro de cada casa. A regra mais segura é sempre seguir os fundamentos do terreiro que você frequenta.

Como começar a se aproximar dos Orixás

Para quem está chegando, a orientação mais comum é começar pelo respeito e pelo estudo. Visitar um terreiro sério, observar uma gira, conversar com os mais velhos da casa e ler sobre a história de cada Orixá são passos seguros. No dia a dia, gestos simples como acender uma vela, fazer uma prece sincera e agradecer pelas bênçãos recebidas já criam uma ligação verdadeira. Os Orixás não pedem perfeição, pedem sinceridade e constância.

Respeito e intolerância religiosa

Apesar de fazerem parte da formação cultural do Brasil, as religiões que cultuam os Orixás ainda enfrentam preconceito. Terreiros são depredados, fiéis são agredidos por usar guias no pescoço e crianças sofrem discriminação na escola. A Constituição Federal garante a liberdade de crença, e a Lei nº 14.532, de 2023, equiparou a injúria racial ao crime de racismo, o que inclui ofensas motivadas pela religião de matriz africana. Conhecer a história dos Orixás é também uma forma de combater a desinformação e de valorizar uma herança que pertence a todos os brasileiros.