Oxóssi: a história do caçador de uma flecha só, de quem é filho e seus fundamentos
Oxóssi é o Orixá da caça, das matas, da fartura e do conhecimento. É o caçador que nunca erra o alvo e que garante o alimento da sua comunidade. Sua saudação é Okê Arô! e seu símbolo é o ofá, um arco e flecha unidos numa só peça. Na Umbanda, é sincretizado com São Sebastião, principalmente no Rio de Janeiro, e com São Jorge na Bahia.
De quem Oxóssi é filho
Nas versões mais difundidas no Brasil, Oxóssi é filho de Iemanjá e irmão de Ogum e de Exu. Algumas casas contam que seu pai é Oxalá. A relação com Ogum é especialmente forte: foi o irmão mais velho quem lhe ensinou a caçar e quem forjou as pontas de ferro de suas flechas.
O caçador de uma flecha só
O itan mais famoso de Oxóssi se passa na festa do inhame novo, em Ifé. Enquanto o rei comemorava a colheita, as Iyá Mi, as mães ancestrais feiticeiras, enviaram um pássaro enorme e assustador para pousar no telhado do palácio. O rei chamou os maiores caçadores do reino. O primeiro tinha vinte flechas e errou todas. O segundo tinha quarenta e também falhou. O terceiro, com cinquenta flechas, não conseguiu acertar o pássaro.
Então chegou um jovem caçador que tinha apenas uma flecha. A mãe dele, preocupada, fez uma oferenda para que tudo desse certo. Ele mirou com calma e acertou o pássaro no peito. A cidade explodiu de alegria e todos gritavam Oxotokanxoxô, que significa “o caçador de uma flecha só”. Desse nome viria Oxóssi. Ele foi recompensado com riquezas e, em algumas versões, tornou-se rei da cidade de Ketu. A história ensina sobre foco, preparo e fé.
Oxóssi, Ossaim e o resgate de Ogum
Conta outro itan que Oxóssi, apesar dos avisos da mãe, entrou na mata para caçar num dia proibido e encontrou Ossaim, o senhor das folhas. Ossaim lhe deu uma bebida feita de ervas e Oxóssi esqueceu quem era, ficando preso na floresta. Iemanjá chorou tanto que suas lágrimas viraram rios. Foi Ogum quem entrou na mata, enfrentou o encantamento e trouxe o irmão de volta. A mãe, magoada com a desobediência, a princípio não quis recebê-lo, e Oxóssi voltou a viver na floresta, que se tornou definitivamente sua casa.
Pai de Logunedé
Oxóssi viveu um romance com Oxum e dessa união nasceu Logunedé, o jovem Orixá que passa metade do tempo nas águas com a mãe e metade nas matas com o pai. Em algumas tradições, o pai de Logunedé é Erinlé, outro Orixá caçador muito próximo de Oxóssi.
Domínios e características
Oxóssi rege a fartura, a prosperidade, o sustento, o conhecimento e a busca por novos horizontes. É o Orixá dos estudiosos, dos curiosos e de quem precisa encontrar uma oportunidade. Na Umbanda, sua linha é formada pelos Caboclos das matas, como Caboclo Pena Branca, Caboclo Sete Flechas, Caboclo Arranca-Toco e Cabocla Jurema.
Cores, dia e oferendas
As cores de Oxóssi na Umbanda são o verde e, em muitas casas, o azul-turquesa, cor que ele usa no Candomblé. Seu dia é a quinta-feira. Entre as oferendas mais comuns estão as frutas variadas, o milho verde cozido, o axoxó (milho vermelho com fatias de coco) e a cerveja branca.
Como são os filhos de Oxóssi
Os filhos de Oxóssi são curiosos, observadores, independentes e criativos. Gostam de liberdade, de natureza, de estudar e de descobrir coisas novas. Costumam ser pessoas discretas, que preferem observar antes de agir, e que têm grande capacidade de concentração quando um objetivo as interessa. São generosos, gostam de receber bem e fazem questão de que ninguém passe necessidade por perto.
Por outro lado, podem parecer distantes ou reservados, têm dificuldade com rotinas rígidas e às vezes mudam de interesse com rapidez. Muitos se identificam com profissões ligadas à pesquisa, à educação, à arte, à biologia, à gastronomia e à agricultura.
Oxóssi, o rei de Ketu
Ketu foi um dos grandes reinos iorubás, localizado onde hoje fica o Benim. Oxóssi é considerado o patrono desse povo, e muitas das casas de Candomblé mais antigas do Brasil, como as tradicionais casas de Salvador, pertencem à chamada nação Ketu. Por isso, Oxóssi ocupa um lugar de enorme importância na história das religiões afro-brasileiras. A destruição de Ketu pelo reino do Daomé, no século XIX, levou muitos de seus habitantes a serem escravizados e trazidos ao Brasil, onde preservaram o culto ao seu Orixá protetor.
São Sebastião e Oxóssi
No Rio de Janeiro, Oxóssi é sincretizado com São Sebastião, padroeiro da cidade. A associação faz sentido pela imagem do santo, um soldado romano martirizado com flechas. O dia 20 de janeiro, dedicado a São Sebastião, é feriado na capital fluminense, e muitos terreiros fazem festas para Oxóssi nessa data. Na Bahia, o sincretismo é com São Jorge.
Ervas e banhos de Oxóssi
As ervas associadas a Oxóssi são muitas, porque toda a mata lhe pertence. Entre as mais usadas estão o alecrim, a alfavaca, o eucalipto, a guiné, o peregum, a folha de goiabeira e a samambaia. Um banho para prosperidade e foco muito difundido mistura alecrim e eucalipto, preparado em água morna e jogado do pescoço para baixo numa quinta-feira, com o pedido de abertura de oportunidades.
Como se conectar com Oxóssi no dia a dia
Oxóssi gosta de natureza e de conhecimento. Caminhar numa mata, cuidar de plantas, plantar uma árvore e dedicar tempo ao estudo são formas simbólicas de honrá-lo. Muitos umbandistas acendem uma vela verde na quinta-feira e oferecem frutas frescas, pedindo fartura na mesa e clareza para encontrar o próprio caminho. Compartilhar alimento com quem precisa também é uma atitude ligada à sua energia de provedor.
Perguntas frequentes sobre Oxóssi
Oxóssi é São Sebastião ou São Jorge? Depende da região. No Rio de Janeiro e em boa parte do Sudeste, São Sebastião. Na Bahia, São Jorge.
Qual a cor de Oxóssi? Verde na maior parte das casas de Umbanda e azul-turquesa no Candomblé.
Oxóssi e Ogum são irmãos? Sim, segundo os itans mais difundidos, ambos são filhos de Iemanjá, e Ogum ensinou Oxóssi a caçar.
O que Oxóssi representa? A fartura, o sustento, o conhecimento e a capacidade de mirar com precisão um objetivo.
Símbolos de Oxóssi
O principal símbolo de Oxóssi é o ofá, o arco e flecha unidos numa só peça, geralmente feito de metal. Ele representa a precisão, o foco e a capacidade de alcançar o alvo com um único movimento. Oxóssi também carrega o eruquerê, um espanador feito de rabo de boi usado para afastar espíritos, e um chapéu de couro enfeitado. Nas casas de Candomblé, seus assentamentos costumam incluir chifres, penas e elementos da mata.
O que Oxóssi ensina
A história de Oxóssi ensina que não é preciso ter muitas flechas, mas saber usar bem a que se tem. Em tempos de excesso de informação e de distrações, sua energia lembra a importância do foco, da paciência e da preparação. Ele ensina também a generosidade: o caçador não caça só para si, mas para alimentar toda a aldeia. Por fim, Oxóssi mostra que o conhecimento é uma forma de fartura, e que quem aprende sempre encontra um caminho.
Como fazer uma oferenda a Oxóssi com respeito
A oferenda mais simples para Oxóssi é uma tigela com frutas variadas, uma vela verde e um copo de água ou de cerveja branca, colocada num local limpo da casa ou, com orientação do terreiro, numa mata. Antes de arrumar os elementos, pede-se licença, mentaliza-se o pedido com clareza e agradece-se pela fartura já recebida. Depois de um ou dois dias, as frutas devem ser recolhidas e devolvidas à natureza, sem plásticos nem embalagens.