O que são guias e fios de contas na Umbanda e no Candomblé
As guias e os fios de contas são colares sagrados usados por praticantes das religiões de matriz africana. Feitos de contas coloridas, sementes, cristais, búzios e outros materiais, eles representam a ligação da pessoa com os Orixás e as entidades e funcionam como proteção espiritual. Neste texto, explicamos o que são as guias e os fios de contas, qual a origem desse costume, a diferença entre os termos, para que servem e como são preparados.
Guia ou fio de contas: qual a diferença
Os dois termos são usados para objetos muito parecidos, mas há diferenças de uso entre as tradições. No Candomblé, o termo mais comum é fio de contas, ou ileke, palavra iorubá. Os fios de contas são entregues ao iniciado em etapas específicas da iniciação e indicam o Orixá de cabeça, o tempo de religião e a posição na hierarquia da casa.
Na Umbanda, o termo mais usado é guia. A palavra lembra a função de guiar e proteger, e também se relaciona aos guias espirituais, as entidades que trabalham com o médium. Na Umbanda, as guias podem ser dedicadas tanto aos Orixás quanto às entidades, como Caboclos, Pretos-Velhos, Exus e Pombagiras. Muitas pessoas usam os dois termos como sinônimos.
A origem africana
O uso de colares sagrados é muito antigo na África Ocidental. Entre os iorubás, as contas de cores específicas identificavam os devotos de cada Orixá e também indicavam status, realeza e funções religiosas. Os reis usavam coroas e colares de contas, e os sacerdotes de Ifá usavam contas verdes e amarelas. Os africanos escravizados trouxeram esse costume ao Brasil, onde ele foi preservado no Candomblé e adaptado na Umbanda.
As contas de vidro usadas no Brasil foram, durante muito tempo, importadas da Europa, especialmente da Itália e da República Tcheca, e eram chamadas de contas da costa ou missangas. Hoje, existem contas produzidas no Brasil e em outros países, de diversos materiais.
Para que servem as guias
As guias têm várias funções. A primeira é a proteção: acredita-se que elas absorvem parte das energias negativas que atingiriam o médium. A segunda é a identificação: a cor e a composição da guia indicam o Orixá ou a entidade a quem ela é dedicada. A terceira é a ligação espiritual: depois de consagrada, a guia passa a carregar a energia do Orixá ou da entidade e ajuda a firmar essa conexão. A quarta é ritual: em muitas casas, determinadas guias só são usadas em giras ou em momentos específicos.
Os materiais das guias
As guias podem ser feitas com contas de vidro, cristal, louça, porcelana, resina, madeira e pedras naturais. Também são usados materiais naturais, como sementes de lágrima de Nossa Senhora, coquinhos, olho-de-cabra, búzios, conchas, dentes, penas e palha da costa. Cada material tem um significado. As sementes e os coquinhos, por exemplo, são associados aos Pretos-Velhos e aos Caboclos. Os búzios lembram Exu, Oxum e o jogo de búzios. Os cristais são associados a Oxalá e Iemanjá.
As cores das guias
Cada Orixá e cada entidade tem suas cores, que orientam a montagem das guias. Oxalá é branco, Iemanjá é azul-claro e cristal, Oxum é amarelo e dourado, Ogum é vermelho ou azul-escuro, Oxóssi é verde ou azul-turquesa, Xangô é marrom ou vermelho e branco, Iansã é amarelo, vermelho ou coral, Nanã é lilás, Omulu é preto, branco e vermelho, e Exu é vermelho e preto. As cores podem variar entre as casas, e a orientação do terreiro deve prevalecer. Aqui no blog, há um texto completo sobre as cores das guias de cada Orixá.
Tipos de guias
Existem vários tipos de guias. As guias simples têm um único fio de contas. As guias de vários fios, chamadas de brajás ou guias de cruzamento em algumas casas, reúnem diversos fios unidos. Há guias curtas, usadas junto ao pescoço, e guias longas, que chegam à cintura. Algumas guias são cruzadas no peito, outras usadas no pulso, como os idés, pulseiras de contas usadas no Candomblé. Em algumas casas, as guias dos dirigentes são maiores e mais elaboradas, indicando sua função.
Como uma guia é consagrada
Uma guia só se torna sagrada depois de consagrada, ou cruzada. A consagração é feita no terreiro, pelo dirigente ou pelos guias incorporados. O processo pode incluir lavagem com ervas, defumação, uso de pemba, rezas, pontos cantados e o contato com o assentamento do Orixá. No Candomblé, a consagração faz parte dos rituais de iniciação e envolve procedimentos específicos de cada nação. Depois de consagrada, a guia deve ser tratada com respeito.
Quem pode usar guias
Na Umbanda, os médiuns da casa usam suas guias nas giras. Consulentes e simpatizantes também podem usar guias de proteção, desde que orientados por um terreiro. No Candomblé, os fios de contas são entregues de acordo com o processo de iniciação, e seu uso segue regras mais rígidas. Em ambos os casos, a orientação do dirigente é fundamental.
Cuidados com as guias
As guias devem ser guardadas em local limpo e reservado, lavadas periodicamente com ervas frias e tiradas em situações como relações sexuais, idas a velórios e ambientes muito pesados, conforme a orientação da casa. Quando uma guia arrebenta, a tradição entende que ela cumpriu sua função de proteção, e as contas devem ser recolhidas e levadas ao terreiro.
Perguntas frequentes sobre guias e fios de contas
Guia e fio de contas são a mesma coisa? São objetos semelhantes. Guia é o termo mais usado na Umbanda e fio de contas, no Candomblé.
Posso comprar uma guia pronta? Sim, mas ela precisa ser limpa e consagrada antes do uso.
Guia protege mesmo? Na visão das religiões de matriz africana, a guia consagrada é um instrumento de proteção espiritual.
O que fazer se a guia arrebentar? Recolher as contas com respeito e levar ao terreiro para orientação.
Conclusão
As guias e os fios de contas são muito mais do que colares. Eles carregam a história dos povos africanos, a simbologia das cores dos Orixás e a energia da consagração. Usá-los com respeito, conhecimento e orientação é uma forma de manter viva a ligação com o sagrado e de honrar a ancestralidade que deu origem a essa tradição.
As guias e a hierarquia no Candomblé
No Candomblé, os fios de contas também indicam a posição de cada pessoa na casa. O abiã, que ainda não foi iniciado, costuma usar apenas um fio simples. O iaô, recém-iniciado, recebe fios específicos de seu Orixá. Depois de sete anos de iniciação, ao se tornar ebomi, a pessoa passa a usar fios mais elaborados. Os sacerdotes e as sacerdotisas usam colares que indicam seus cargos. Assim, olhar os fios de contas de alguém num terreiro de Candomblé permite reconhecer, em parte, sua trajetória religiosa. Na Umbanda, essa hierarquia também existe em algumas casas, mas costuma ser mais flexível.
As guias e o preconceito
Usar guias em público ainda pode gerar preconceito, especialmente em escolas, ambientes de trabalho e espaços públicos. A Constituição Federal garante a liberdade religiosa, e a discriminação por motivo de religião é crime no Brasil. Muitos praticantes escolhem usar as guias por baixo da roupa, por discrição ou proteção, enquanto outros preferem usá-las à mostra, como afirmação de sua fé. As duas escolhas devem ser respeitadas.
As guias como herança familiar
Em muitas famílias de terreiro, as guias passam de geração em geração. Uma avó que foi médium pode deixar suas guias para uma neta, que as guarda com carinho ou as leva ao terreiro para orientação. Nesses casos, a tradição recomenda que a guia herdada seja limpa e, se for usada, consagrada novamente para a nova pessoa. Esse costume mostra como as guias carregam não apenas energia espiritual, mas também memória e afeto.