O que acontece em uma gira de Umbanda: passo a passo do começo ao fim
A gira é o principal ritual da Umbanda. É nela que os médiuns incorporam as entidades, que os consulentes são atendidos e que a comunidade do terreiro se reúne para praticar a caridade. Para quem nunca foi a uma gira, o ritual pode parecer misterioso. Neste texto, explicamos o que acontece numa gira de Umbanda, do começo ao fim, e damos orientações para quem vai pela primeira vez.
O que significa gira
A palavra gira vem do verbo girar e lembra o movimento circular dos médiuns no salão, as danças e o próprio ciclo do ritual, que começa, se desenvolve e termina. Em algumas casas, a gira também é chamada de sessão ou trabalho. Cada gira costuma ser dedicada a uma linha específica, como Caboclos, Pretos-Velhos, Crianças, Baianos, Marinheiros, Boiadeiros, Ciganos ou Exus e Pombagiras.
Antes da gira: a preparação
A gira começa muito antes de os consulentes chegarem. Os médiuns se preparam ao longo do dia, evitando bebidas alcoólicas, carne vermelha em algumas casas, relações sexuais e ambientes pesados. Antes de sair de casa, tomam banho de ervas. Ao chegar ao terreiro, vestem a roupa branca, saúdam a casa de Exu na entrada, batem cabeça diante do congá e cumprimentam o dirigente e os mais velhos.
Enquanto isso, os cambones organizam o espaço: acendem as velas, preparam os elementos que as entidades vão usar, arrumam as cadeiras e organizam as fichas de atendimento. Os ogãs, responsáveis pelos atabaques, afinam os instrumentos.
A abertura e a defumação
A gira propriamente dita começa com a abertura. O dirigente pede silêncio, e a casa é defumada. Um médium passa o defumador com ervas queimadas pelo congá, pelos atabaques, pelos médiuns, pelos consulentes e por todo o salão, enquanto os outros cantam pontos de defumação. O objetivo é limpar as energias do ambiente e preparar todos para o trabalho espiritual.
As orações
Em seguida, são feitas as orações de abertura. Em muitas casas, reza-se o Pai Nosso, a Ave Maria e a Prece de Cáritas. Outras casas têm orações próprias. As orações ajudam a concentrar o pensamento de todos e a pedir proteção para os trabalhos.
A saudação a Exu e aos Orixás
Depois das orações, os pontos cantados começam a saudar as forças espirituais. Em muitas casas, a primeira saudação é feita a Exu, guardião dos caminhos, pedindo licença e proteção para a gira. Em seguida, são saudados os Orixás, geralmente começando por Oxalá e seguindo pelos demais, com pontos que contam suas histórias e exaltam suas qualidades. Os atabaques marcam o ritmo e os médiuns dançam e cantam.
A chamada das entidades e a incorporação
Quando a corrente está formada e a energia está preparada, começam os pontos de chamada da linha do dia. Se a gira for de Caboclos, por exemplo, os pontos falam de matas, flechas e aldeias. Nesse momento, os médiuns começam a incorporar. Cada incorporação tem sua forma: os Caboclos chegam com brados, os Pretos-Velhos se curvam, as Crianças sorriem e se sentam no chão, os Exus gargalham. Os cambones ficam atentos para amparar os médiuns e oferecer os elementos que cada entidade usa.
O atendimento aos consulentes
Com as entidades incorporadas, começa o atendimento. Os consulentes são chamados, geralmente por ordem de chegada ou por ficha, e conduzidos até a entidade. A consulta é um diálogo: o consulente fala sobre o que o preocupa, e a entidade ouve, aconselha, dá passes, benze, indica banhos, orações ou mudanças de atitude. Os cambones anotam as orientações e ajudam a esclarecer dúvidas. Cada consulta dura alguns minutos, e o tempo varia conforme a casa e a necessidade.
O atendimento na Umbanda é gratuito, princípio estabelecido desde a fundação da religião. Algumas casas aceitam doações voluntárias para manter o espaço, mas nenhuma consulta deve ser cobrada.
Os passes e as limpezas
Além das consultas individuais, as entidades costumam dar passes coletivos ou individuais. O passe é a imposição das mãos sobre o corpo do consulente, com a intenção de retirar energias negativas e transmitir energia positiva. Algumas entidades usam charutos, cachimbos, ervas ou água para fazer limpezas. Em algumas giras, há também a quebra de demandas, trabalhos específicos para desfazer energias pesadas.
A subida das entidades
Quando o atendimento termina, começam os pontos de subida, que são os cânticos de despedida das entidades. Elas se despedem dos médiuns, dos cambones e dos consulentes, deixam suas bênçãos e partem, como se diz nos terreiros, de volta para Aruanda. Os médiuns retomam a consciência plena, e os cambones ficam atentos a qualquer desequilíbrio.
O encerramento
Para encerrar, faz-se uma oração de agradecimento, muitas vezes novamente a Prece de Cáritas ou o Pai Nosso. Saúda-se Oxalá e, em algumas casas, Exu, para que guarde a saída de todos. Os médiuns batem cabeça no congá, e o dirigente encerra os trabalhos. Muitas casas oferecem água ou um pequeno lanche aos médiuns depois da gira.
Como se comportar na primeira gira
Quem vai a uma gira pela primeira vez deve chegar com antecedência, de preferência com roupas claras e discretas. É importante desligar o celular, manter silêncio durante as orações, não fotografar nem filmar sem autorização e seguir as orientações dos cambones. Ao ser atendido, fale com sinceridade e ouça com atenção. Não é preciso ter medo: as entidades estão ali para ajudar. Depois da gira, muitas casas recomendam evitar bebidas alcoólicas e ambientes pesados no restante do dia.
Perguntas frequentes sobre a gira
Quanto tempo dura uma gira? Em média, de duas a quatro horas, dependendo da casa e do número de consulentes.
Preciso pagar para ser atendido? Não. O atendimento na Umbanda é gratuito.
Posso levar crianças? Muitas casas permitem, especialmente nas giras de Crianças.
Posso escolher com qual entidade falar? Depende da casa. Algumas permitem, outras distribuem os consulentes.
Conclusão
A gira de Umbanda é um ritual organizado, com começo, meio e fim, que une preparação espiritual, orações, cânticos, incorporação e atendimento ao público. Por trás de cada etapa há fundamentos e cuidados que garantem a segurança de todos e a eficácia do trabalho. Conhecer o que acontece numa gira ajuda a participar com mais tranquilidade, respeito e abertura para receber a ajuda que se procura.
Giras abertas e giras fechadas
Nem toda gira é aberta ao público. As giras abertas, também chamadas de giras de atendimento ou de caridade, recebem consulentes e são o tipo mais conhecido. As giras fechadas, ou giras de desenvolvimento, são reservadas aos médiuns da casa e servem para o aprendizado mediúnico, a firmeza da corrente e os trabalhos internos. Também existem as giras festivas, realizadas nas datas dos Orixás e das entidades, que costumam ter mais música, comida e celebração. Cada casa organiza seu calendário de acordo com seus fundamentos.
O papel de cada pessoa na gira
Numa gira, cada pessoa tem uma função. O dirigente conduz os trabalhos e zela pela segurança espiritual de todos. Os médiuns incorporam as entidades. Os cambones auxiliam as entidades e os consulentes. Os ogãs tocam os atabaques e puxam os pontos. Os consulentes participam com respeito, atenção e fé. Essa organização mostra que a gira é um trabalho coletivo, em que todos contribuem para que a caridade aconteça.
Depois da gira
Depois de participar de uma gira, muitas pessoas sentem leveza, paz ou emoção. Outras sentem cansaço, porque passaram por limpezas energéticas. A orientação comum é descansar, beber água e seguir as recomendações recebidas na consulta, como banhos ou orações.