Guia comprada, feita em casa ou encomendada: qual a diferença na Umbanda
Uma das dúvidas mais comuns de quem começa na Umbanda é se a guia pode ser comprada pronta numa loja de artigos religiosos, se deve ser feita pelo próprio médium em casa ou se o ideal é encomendar a alguém. Cada uma dessas opções tem características próprias, vantagens e cuidados. Neste texto, explicamos as diferenças e o que a tradição recomenda em cada caso.
O que dá energia a uma guia
Antes de comparar as opções, é importante entender um princípio: na Umbanda, uma guia não tem força espiritual apenas por existir. O que dá energia a ela é a intenção com que foi feita, a consagração, também chamada de cruzamento, e a ligação que o médium desenvolve com ela ao longo do tempo. Uma guia comprada, feita em casa ou encomendada pode ser igualmente válida, desde que passe por esse processo de preparo espiritual.
A guia comprada pronta
A guia comprada pronta é aquela adquirida em lojas de artigos religiosos, feiras ou sites, já montada. É a opção mais prática e acessível, especialmente para quem está começando e ainda não tem habilidade para montar as próprias guias.
A principal vantagem é a praticidade. A principal desvantagem é que não se sabe em que condições a guia foi feita, por quem e com qual energia. Por isso, a tradição recomenda que a guia comprada seja sempre limpa e consagrada antes do uso. A limpeza costuma ser feita com um banho de ervas, como colônia, boldo ou alfazema, e a consagração é feita no terreiro, pelo dirigente ou pelos guias, que cruzam a guia com pemba, ervas e orações.
Também é importante conferir a qualidade do material e a correspondência das cores com os fundamentos do terreiro. Algumas guias vendidas prontas usam cores ou combinações que não seguem a tradição da casa que você frequenta.
A guia feita em casa
A guia feita em casa é aquela montada pelo próprio médium, conta por conta. Muitos terreiros consideram essa a opção mais completa, porque o médium coloca sua intenção, sua concentração e sua energia em cada conta enquanto monta o colar. O ato de fazer a guia se torna, por si só, um ritual.
Para montar uma guia em casa, a tradição recomenda escolher um momento tranquilo, de preferência no dia da semana do Orixá a quem a guia será dedicada. O médium toma um banho de ervas, veste roupas claras, acende uma vela para o Orixá e organiza o material: as contas, o fio, as firmas e o fecho. Durante a montagem, pode rezar, cantar pontos ou simplesmente mentalizar o Orixá. A quantidade de contas costuma seguir números ligados a cada Orixá, como sete, catorze ou vinte e um, conforme os fundamentos da casa.
A vantagem é a ligação pessoal com a guia e o conhecimento de tudo o que foi usado. A desvantagem é que exige tempo, paciência e algum conhecimento técnico. Mesmo feita em casa, a guia precisa ser consagrada no terreiro antes do uso.
A guia encomendada
A guia encomendada é aquela feita sob medida por outra pessoa, geralmente um artesão especializado, um médium mais experiente ou alguém do próprio terreiro. É uma opção intermediária entre a guia comprada e a feita em casa. O médium escolhe o material, as cores, a quantidade de contas e o tipo de fecho, e a guia é montada de acordo com os fundamentos da casa.
A vantagem é a qualidade e a correspondência com a tradição, já que a pessoa que monta conhece os detalhes. Quando a encomenda é feita a alguém do próprio terreiro, há também a confiança na energia de quem fez. A desvantagem é o custo, geralmente maior, e a necessidade de confiar no artesão. Assim como as outras, a guia encomendada precisa ser limpa e consagrada antes do uso.
Qual é a melhor opção
Não existe uma resposta única. Muitos dirigentes de terreiro recomendam que a guia do Orixá de cabeça e as guias dos guias principais sejam feitas pelo próprio médium ou encomendadas a alguém de confiança dentro da casa, por terem um significado especial. Guias de uso mais simples, como as de proteção para o dia a dia, podem ser compradas, desde que passem pelo processo de limpeza e consagração.
Em todos os casos, o mais importante é seguir a orientação do seu terreiro. Cada casa tem seus fundamentos, e o dirigente espiritual saberá indicar o caminho mais adequado para cada médium.
A consagração ou cruzamento da guia
A consagração, também chamada de cruzamento, é o momento em que a guia recebe a energia do Orixá ou da entidade a quem foi dedicada. Ela é feita no terreiro, geralmente durante uma gira, pelo dirigente ou pelos próprios guias incorporados. O processo pode incluir banhos de ervas, uso de pemba, defumação, rezas, pontos cantados e, em algumas casas, o contato com o assentamento do Orixá.
Depois de consagrada, a guia passa a ser um objeto sagrado e deve ser tratada com respeito. Ela não deve ser emprestada, usada como enfeite em situações inadequadas nem deixada em qualquer lugar.
Cuidados com qualquer tipo de guia
Independentemente da origem, toda guia precisa de cuidados. É recomendado guardá-la num lugar limpo, de preferência num pano branco ou numa caixa reservada, longe de objetos comuns. Também se recomenda tirá-la em situações como relações sexuais, banhos de mar sem intenção religiosa, idas a velórios e ambientes muito pesados, conforme a orientação do terreiro. Periodicamente, a guia deve ser lavada com ervas para renovar sua energia.
O que fazer quando a guia arrebenta
Quando uma guia arrebenta, a tradição costuma interpretar que ela cumpriu sua função, absorvendo uma energia negativa que seria destinada ao médium. Nesse caso, as contas devem ser recolhidas com respeito, sem pisar nelas, e levadas ao terreiro, onde o dirigente orientará se a guia deve ser refeita ou devolvida à natureza.
Perguntas frequentes sobre guias
Posso usar uma guia comprada sem consagrar? A tradição recomenda que toda guia seja consagrada antes do uso.
Posso fazer minha própria guia? Sim, e muitos terreiros incentivam essa prática, desde que siga os fundamentos da casa.
Quem pode cruzar uma guia? O dirigente do terreiro ou os guias incorporados, conforme a casa.
Posso emprestar minha guia? Não é recomendado, porque ela carrega a sua energia.
Conclusão
A guia comprada, a feita em casa e a encomendada podem ter o mesmo valor espiritual, desde que sejam preparadas com intenção, limpeza e consagração. O que muda é a ligação pessoal, a qualidade do material e a confiança em quem fez. Na dúvida, siga sempre a orientação do seu terreiro, que conhece os fundamentos e saberá indicar o melhor caminho.
O valor do artesanato religioso
A produção de guias é também uma forma de artesanato tradicional, transmitida de geração em geração nos terreiros. Muitas famílias e comunidades vivem dessa produção, que mantém viva uma técnica e uma estética ligadas às religiões de matriz africana. Ao encomendar uma guia a um artesão de confiança, o médium também valoriza esse trabalho e essa memória.
Como escolher uma loja ou um artesão
Na hora de comprar ou encomendar uma guia, vale observar alguns pontos. Prefira lojas e artesãos que conheçam os fundamentos e que saibam explicar as cores e os materiais. Verifique a qualidade das contas e do fio, para evitar que a guia arrebente com facilidade. Desconfie de preços muito altos acompanhados de promessas espirituais exageradas, já que a energia da guia vem da consagração e da fé, e não do valor pago. Quando possível, peça indicação ao seu terreiro.