Oxalá: a história do pai da criação, de quem é filho e as Águas de Oxalá
Oxalá é o Orixá da criação, da paz, da fé e da pureza. É considerado o pai de muitos Orixás e o mais respeitado de todos. Na Umbanda, é o Orixá maior, o que está acima das linhas e representa a luz de Olorum. Seu nome vem de Orixá Nlá, “o grande Orixá”, e na Nigéria é conhecido como Obatalá, “o rei do pano branco”. Sua saudação é Epa Babá! ou Exê ê Babá!. No Brasil é sincretizado com Jesus Cristo, especialmente com o Senhor do Bonfim, em Salvador.
De quem Oxalá é filho
Oxalá é filho direto de Olodumare, também chamado de Olorum, o Deus supremo dos iorubás. Foi o primeiro Orixá criado e recebeu a tarefa mais importante: criar o mundo e os seres humanos.
A criação do mundo
Olodumare entregou a Oxalá um saco com terra e uma galinha de cinco dedos e o mandou criar a Terra. Antes de partir, Oxalá deveria fazer uma oferenda a Exu, mas não fez. No caminho, Exu fez com que ele sentisse muita sede. Oxalá encontrou uma palmeira, furou seu tronco e bebeu vinho de palma até adormecer.
Odudua, seu irmão, que acompanhava tudo, pegou o saco da criação e foi até Olodumare. Recebeu autorização para cumprir a missão. Desceu, espalhou a terra sobre as águas e soltou a galinha, que ciscou e espalhou o solo, formando os continentes. Assim nasceu Ilê-Ifé, o berço do mundo para os iorubás. Quando Oxalá acordou, ficou envergonhado e, desde então, proibiu a si mesmo e aos seus filhos o consumo de vinho de palma.
A criação dos seres humanos
Olodumare deu a Oxalá uma segunda chance: modelar os seres humanos. Com o barro cedido por Nanã, ele moldou cada pessoa e Olodumare soprou a vida. Em algumas versões, Oxalá voltou a beber durante o trabalho e criou pessoas com deficiências. Arrependido, passou a ser o protetor de todas elas. Esse itan explica por que as pessoas com deficiência são consideradas protegidas de Oxalá.
As Águas de Oxalá
Um dos itans mais bonitos conta que Oxalá, já velho, decidiu visitar o filho Xangô em Oyó. Consultou o oráculo e foi avisado de que sofreria no caminho e não deveria reclamar de nada. Exu cruzou seu caminho três vezes. Na primeira, pediu ajuda para levantar um pote de dendê e o derramou sobre as roupas brancas de Oxalá. Na segunda, fez o mesmo com carvão. Na terceira, com outro líquido que manchou suas vestes. Oxalá trocou de roupa no rio e seguiu em silêncio.
Perto de Oyó, ele encontrou um cavalo fugido de Xangô e tentou devolvê-lo. Os guardas o acusaram de roubo e o prenderam. Oxalá passou sete anos na prisão sem dizer quem era. Durante esse tempo, o reino de Xangô sofreu com seca, doenças e esterilidade. Xangô consultou o oráculo e descobriu que um homem inocente estava preso. Quando reconheceu o pai, pediu perdão, mandou buscar água no rio e o banhou com reverência, vestindo-o de branco.
Essa história deu origem às Águas de Oxalá, cerimônia em que os filhos carregam água em silêncio para lavar os assentamentos do Orixá. Em Salvador, a Lavagem do Bonfim é inspirada nessa tradição.
Oxalufã e Oxaguiã
Oxalá tem duas qualidades principais. Oxalufã é o velho, que caminha curvado apoiado no opaxorô, um cajado de metal. Oxaguiã é o jovem guerreiro, que carrega uma espada e um pilão, ligado ao inhame novo.
Cores, dia e oferendas
A cor de Oxalá é o branco. Seu dia é a sexta-feira, quando muitos umbandistas vestem branco. Suas oferendas são a canjica branca, o inhame, o arroz, o algodão, as flores brancas e a água. Não se oferecem a ele dendê, sal em excesso nem bebida alcoólica.
Como são os filhos de Oxalá
Os filhos de Oxalá costumam ser pessoas calmas, pacientes, pacíficas e muito éticas. Têm grande capacidade de mediar conflitos, de ouvir e de aconselhar. Valorizam a verdade, a limpeza, a ordem e a tranquilidade. São respeitados pelos outros e costumam ser vistos como referências morais.
Podem ser teimosos, lentos para tomar decisões e às vezes muito exigentes consigo mesmos. Os filhos de Oxaguiã, a forma jovem, são mais ativos e determinados, enquanto os de Oxalufã, a forma velha, são mais contemplativos. Muitos se identificam com profissões ligadas à educação, à religião, à filosofia, à medicina e à mediação.
Por que Oxalá é o Orixá maior na Umbanda
Na Umbanda, Oxalá ocupa o lugar mais alto entre os Orixás. Ele é visto como a representação da luz divina e, em muitas casas, como a força que coordena todas as linhas de trabalho. O altar de quase todos os terreiros tem uma imagem de Jesus Cristo, sincretizado com Oxalá, no ponto mais alto. A sexta-feira, seu dia, é dedicada à paz e à reflexão, e muitos umbandistas vestem branco e evitam carne vermelha.
A Lavagem do Bonfim
A Lavagem do Bonfim, em Salvador, é uma das maiores festas populares da Bahia. Acontece na segunda quinta-feira depois do Dia de Reis, em janeiro. Baianas vestidas de branco caminham cerca de oito quilômetros, da Igreja da Conceição da Praia até a Igreja do Bonfim, carregando potes com água de cheiro e lavam as escadarias do templo. A festa une o catolicismo, o Candomblé e a cultura popular e foi inspirada nas Águas de Oxalá.
O branco de Oxalá
O branco é a cor de Oxalá e representa a pureza, a paz e a união de todas as cores. Por isso, a roupa branca é o uniforme mais comum nos terreiros de Umbanda, como foi orientado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas desde a fundação da religião. Vestir branco na sexta-feira é um costume que se espalhou para além dos terreiros e hoje é seguido por muitas pessoas, de diferentes crenças.
Ervas e banhos de Oxalá
Entre as ervas de Oxalá estão o boldo, também chamado de tapete-de-oxalá, o algodoeiro, a saião, a colônia, o manjericão branco e a malva. Um banho tradicional de paz e clareza leva folhas de boldo e manjericão, preparado na sexta-feira em água fresca e jogado do pescoço para baixo.
Como se conectar com Oxalá no dia a dia
Oxalá se agrada da paz, da verdade e da limpeza, tanto do corpo quanto da mente. Vestir branco às sextas, manter a casa organizada, evitar brigas, perdoar e praticar a caridade são atitudes ligadas à sua energia. Muitas pessoas acendem uma vela branca na sexta-feira e colocam ao lado um copo de água, fazendo uma oração pedindo paz.
Perguntas frequentes sobre Oxalá
Oxalá é Jesus? No sincretismo, Oxalá é associado a Jesus Cristo, especialmente ao Senhor do Bonfim.
Qual a saudação de Oxalá? Epa Babá! ou Exê ê Babá!
Oxalá é pai de quem? Segundo os itans mais difundidos, de muitos Orixás, com Iemanjá e com Nanã.
O que não se oferece a Oxalá? Dendê, sal em excesso, bebidas alcoólicas e alimentos escuros.
O que Oxalá ensina
Oxalá ensina que a paciência e a paz são caminhos de sabedoria. A história das Águas de Oxalá mostra um Orixá que suportou injustiças em silêncio, confiando que a verdade apareceria. Seu erro na criação do mundo ensina que todos podem falhar, mas que é possível reparar e proteger quem foi prejudicado.
Uma oferenda simples a Oxalá pode ser feita com canjica branca cozida sem sal, uma vela branca, flores brancas e um copo de água, colocados num local limpo da casa na sexta-feira.
Epa Babá!