O que são pontos cantados e pontos riscados na Umbanda
Quem assiste a uma gira de Umbanda percebe que a música está presente do começo ao fim. São os pontos cantados, acompanhados pelos atabaques, que chamam as entidades, contam histórias e dão ritmo ao ritual. Ao mesmo tempo, no chão ou em tábuas, aparecem desenhos feitos com giz branco: são os pontos riscados. Neste texto, explicamos o que são os pontos cantados e riscados, sua origem e sua importância nos fundamentos da Umbanda.
O que são pontos cantados
Os pontos cantados são os cânticos sagrados da Umbanda. Eles são entoados durante as giras para saudar os Orixás, chamar as entidades, acompanhar os trabalhos espirituais e marcar cada momento do ritual. São cantados em português, muitas vezes com palavras de origem africana ou indígena, e acompanhados por atabaques, palmas e, em algumas casas, agogôs e chocalhos.
Os pontos cantados têm letras simples e melodias fáceis de repetir, o que permite que todos participem. Eles falam das matas, dos rios, do mar, das pedreiras, das encruzilhadas, das histórias dos Orixás e da vida das entidades. Cada linha e cada entidade tem seus pontos próprios.
A função dos pontos cantados
Os pontos cantados têm várias funções. A primeira é criar a vibração necessária para o trabalho espiritual. O canto coletivo, o ritmo dos atabaques e a repetição das melodias ajudam a concentrar a mente dos médiuns e a harmonizar a energia do ambiente. A segunda é chamar as entidades: cada ponto funciona como um convite para que determinada linha ou entidade se aproxime. A terceira é marcar o andamento da gira, com pontos de abertura, defumação, saudação, chamada, trabalho, subida e encerramento.
Os pontos também ensinam. Muitos contam histórias dos Orixás e das entidades, transmitindo fundamentos de forma oral, de geração em geração. Para quem está chegando, aprender os pontos é uma forma de conhecer a religião.
Os tipos de pontos cantados
Existem pontos de abertura, que iniciam a gira. Pontos de defumação, cantados enquanto o ambiente é limpo com a fumaça das ervas. Pontos de saudação, que homenageiam os Orixás e os guardiões. Pontos de chamada, que convidam as entidades a se manifestar. Pontos de trabalho, cantados durante o atendimento e as limpezas. Pontos de descarrego, para retirar energias pesadas. Pontos de subida, para a despedida das entidades. E pontos de encerramento, que fecham os trabalhos.
Também existem os pontos de raiz, que, segundo a tradição, foram trazidos pelas próprias entidades, e os pontos terrenos, compostos por pessoas da comunidade. Ambos são respeitados.
Os atabaques e a curimba
Os atabaques são tambores de madeira e couro que acompanham os pontos cantados. Na Umbanda, o conjunto de músicos e cantores é chamado de curimba, e os tocadores são chamados de ogãs ou curimbeiros. Os atabaques têm tamanhos diferentes, e cada um tem uma função no ritmo. Os toques variam de acordo com a linha: há toques mais lentos para os Pretos-Velhos, mais acelerados para os Caboclos e os Exus, e ritmos específicos como o ijexá, o congo e o barravento.
Os atabaques são consagrados e tratados como objetos sagrados. Em muitas casas, eles recebem banhos de ervas, oferendas e cuidados especiais, e só podem ser tocados por pessoas autorizadas.
O que são pontos riscados
Os pontos riscados são desenhos simbólicos feitos com pemba, um giz sagrado, geralmente branco, mas que também pode ter outras cores. Eles são riscados no chão, em tábuas de madeira ou em outros suportes, pelas próprias entidades incorporadas ou pelos médiuns, de acordo com os fundamentos da casa.
Cada entidade tem seu ponto riscado, que funciona como uma assinatura espiritual. Ele identifica a entidade, a linha, o Orixá e o campo de atuação. Por meio do ponto riscado, a entidade firma sua presença no terreiro e direciona as energias para o trabalho que vai realizar.
Os símbolos dos pontos riscados
Os pontos riscados usam símbolos que comunicam a identidade e a função da entidade. Flechas, arcos e folhas indicam Caboclos e a linha de Oxóssi. Espadas e lanças indicam Ogum. Machados e raios indicam Xangô. Estrelas, ondas e âncoras indicam Iemanjá e o povo do mar. Cruzes, rosários e cachimbos indicam Pretos-Velhos. Tridentes de pontas retas indicam Exus, e tridentes de pontas arredondadas, Pombagiras. Corações e flores aparecem em pontos de amor. Luas, sóis e estrelas aparecem em muitos pontos, com significados variados.
A pemba
A pemba é um giz feito de calcário ou de argila branca, muitas vezes misturado com outros elementos e consagrado. Além de riscar pontos, ela é usada para cruzar médiuns, guias e objetos, para fazer sinais de proteção e, raspada em pó, em algumas limpezas. A pemba branca é a mais comum, mas também existem pembas coloridas, nas cores dos Orixás. A palavra tem origem nas línguas bantas.
Pontos e fundamentos
Os pontos cantados e riscados fazem parte dos fundamentos de cada terreiro. Por isso, não devem ser usados de forma leviana. Riscar um ponto sem conhecimento ou cantar pontos fora do contexto ritual não é recomendado pelos dirigentes. O aprendizado acontece dentro do terreiro, com a orientação dos mais velhos e das próprias entidades.
Perguntas frequentes
Qualquer pessoa pode cantar pontos? Nas giras, todos são convidados a cantar. Fora delas, recomenda-se respeito ao contexto.
Quem risca o ponto? Geralmente a própria entidade incorporada ou um médium autorizado.
O que é curimba? É o conjunto de músicos e cantores que conduz os pontos cantados.
Ponto riscado tem significado fixo? Os símbolos têm significados gerais, mas cada ponto é único.
Conclusão
Os pontos cantados e riscados são linguagens sagradas da Umbanda. Pelo canto e pelo ritmo, a comunidade se une e chama as entidades. Pelo desenho e pelos símbolos, as entidades firmam sua presença e direcionam seus trabalhos. Conhecer esses elementos ajuda a compreender a riqueza da religião e a perceber que, num terreiro, cada som e cada traço têm um sentido.
A origem dos pontos cantados
Os pontos cantados têm raízes nas cantigas africanas trazidas pelos povos escravizados, nos cantos indígenas e nas rezas católicas populares. Nas antigas macumbas do Rio de Janeiro, no começo do século XX, essas influências se misturaram, criando um repertório que a Umbanda herdou e ampliou. Com o tempo, muitos pontos foram gravados em discos e se tornaram conhecidos fora dos terreiros. A música popular brasileira também foi influenciada por esse universo, e muitos sambistas e compositores tiveram contato com os pontos de Umbanda.
Aprender os pontos
Para quem está começando, aprender os pontos é uma das melhores formas de participar das giras. A repetição semanal faz com que as melodias e as letras sejam memorizadas naturalmente. Muitos terreiros têm cadernos de pontos ou ensinam os mais novos durante as giras de desenvolvimento. Cantar junto, com atenção ao significado das palavras, ajuda a fortalecer a corrente e a se sentir parte da comunidade.
O silêncio também é fundamento
Assim como o canto, o silêncio tem seu lugar na gira. Durante as orações, as consultas e certos trabalhos, a curimba para, e o silêncio ajuda a concentração. Saber quando cantar e quando silenciar faz parte do aprendizado de quem participa de um terreiro.
Os pontos e a memória da religião
Como a Umbanda não tem um livro sagrado único, os pontos cantados cumprem um papel importante na preservação da memória da religião. Eles guardam nomes de entidades, histórias de Orixás, referências a lugares sagrados e ensinamentos morais. Muitos pontos antigos foram transmitidos por décadas apenas de boca em boca, e hoje são registrados em cadernos, livros e gravações. Preservar esse repertório é preservar a história da própria Umbanda.